Você já entrou em um ambiente e teve a impressão de estar tão pesado ali que poderia cortá-lo com uma faca?
Já aconteceu de você, ir a uma festa de família e sentir uma atmosfera diferente, uma tensão no ar, troca de olhares, frases cortadas?
O segredo é usado pela família como uma armadura para própria sobrevivência, e se rege por certos mecanismos que deixa alguns membros à parte dele.
É a expressão mais genuína e singular de cada núcleo familiar, é uma herança transmitida às próximas gerações, ainda que silenciosamente.
Eles podem ser inúmeros, “são como exceções à regra, cada família tem o seu”: gravidez indesejada, aborto, incesto, abuso, adoção desonesta, homossexualidade, casos extraconjugais, falência, pobreza, esquizofrenia, epilepsia, HIV, suicídio, adicções etc.
Na clínica, notamos que, na impossibilidade de um sujeito simbolizar o segredo, este continua ativo, sendo transmitido às próximas gerações, como bem aponta Belinda Mandelbaum, na esperança que estas tenham condições psíquicas de elaborá-lo.
Dessa forma, o motor do segredo, é a vergonha traumática, aliada à crença da necessidade de sobrevivência da família.
Em muitos casos, receia-se que o membro fique marcado, estigmatizado e na ânsia por protegê-lo, firma-se tacitamente o pacto do que não pode ser dito no seio familiar.
Sua ocultação gera um paradoxo, pois, quem conhece o segredo, torna-se tenso e ansioso, toma cuidado com o rumo da conversa.
Ao passo que, quem não conhece o segredo, também fica identificado com a tensão presente e tem a sensação de culpa, peso ou inadequação.
Dessa forma, a psicanálise, desponta como uma ferramenta que possibilita a simbolização do segredo, pois, quando não articulado, tem-se um único destino possível: a identificação melancólica dos seus herdeiros.
Bibliografia
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