Educação afetiva, você sabe dar?

(Claudia Pedrozo)

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Olá, pessoas bonitas! Depois de uma breve hibernada estou de volta!

Nesta semana gostaria de conversar sobre um assunto “modernoso” (será?) na educação dos nossos filhos. Vamos falar um pouquinho sobre Educação Afetiva.

Segundo a psicóloga Marilda Lipp, Educação Afetiva “é um conjunto de práticas parentais que objetiva, acima de tudo a valorização do ser humano… (nela) os pais dão liberdade, mas sempre estão presentes para atuar, se for necessário”.

Em outras palavras é a forma como, no cotidiano da vida do adolescente, os pais reconhecem, valorizam e incentivam o florescimento do “lado bom” dos filhos, orientando-os de modo que possam fazer escolhas responsáveis e conscientes e, acima de tudo arcar com os resultados destas escolhas.

Pais que educam os filhos desta forma, não os protegem o tempo todo, não lhes dão tudo que querem, ao contrário, possuem a coragem de dizer “não”; deixam os filhos fazerem escolhas, orientando-os para possíveis consequências, estão vigilantes e alertas para o apoio necessário quando os filhos “erram” e valorização e estímulos quando acertam. Não se projetam nos filhos, não tentam suprir suas lacunas emocionais através da vida deles.

Se observarmos o mundo hoje, veremos que carecemos de educadores que promovam uma Educação Afetiva.

Na luta diária que é educar filhos, percebemos que ceder é geralmente a melhor estratégia, se você, pai/mãe, não quiser ganhar um chapéu pontudo preto, uma vassoura voadora e verrugas no nariz; você é vencido pela incansável capacidade que seu “reizinho mandão” tem de colocar o dedo na sua ferida, indo direto ao point da sua culpa. Ah, filhos são seres altamente sagazes, observadores, manipuladores e cruéis quando querem algo! E sabem muito bem como conquistar o que desejam… aprenderam isso com quem mesmo?

Diante da culpa, todo e qualquer pai/mãe menos avisado e emocionalmente mais instável cede e o resultado disso vemos aos montes na mídia, nas ruas, nos shoppings. Filhos de pais permissivos crescem e se tornam adultos ansiosos e com baixa tolerância à frustração, tornam-se depressivos, desenvolvem síndromes mil e são “pessoas metade” (aquelas que precisam receber provisão de segurança e reconhecimento constantemente e usam os outros para isso), altamente infelizes e sofrem e fazem sofrer.

ed2O contrário disso também é um problema! Pais altamente autoritários, com mania de perfeição, geram adultos que têm medo da própria sombra, são inseguros, ansiosos, depressivos, apáticos diante da vida, também desenvolvem síndromes mil, também são “metades”, que sofrem e fazem sofrer.

Como ser um “pai/mãe afetivo(a) e ajudar seu filho adolescente a ser um adulto mais ajustado, mais equilibrado? Esta é uma tarefa trabalhosa, mas possível.

No livro “Adolescentes e seus dilemas”, cuja organização esteve a cargo da psicóloga Marilda Lipp, ela nos dá algumas dicas:

1)       Entenda que a adolescência e toda sua montanha russa emocional um dia passarão. Embora hoje seus filhos pareçam rejeitar todos os valores familiares que você tenta lhe ensinar (pelos exemplos, mais que por palavras), passada a crise adolescente, eles serão incorporados e passarão a ser vivenciados;

2)       Cuide da sua saúde emocional para não correr o risco de transferir e cobrar de seu adolescente sonhos e atitudes que são suas e não dele. Observe também onde você está descarregando seu stress… Lembre-se, os filhos aprendem pela observação, mais que pela audição;

3)       Estabeleça o diálogo, ouvindo o que seu filho adolescente tem a dizer, mesmo que você não concorde. Ajude-o a olhar a situação por diferentes ângulos, dê a ele liberdade de escolha quando for possível. E não tenha medo de dizer não e impor limites quando for necessário. Faça isso sem julgamentos e condenações, estabeleça um juízo de razão, onde você faz um questionamento que promove a reflexão. Trabalhe em você a sua frustração de ser o “desmancha prazeres” e entenda que seu papel é o de educar e proteger, mesmo quando o filho diz não querer;

4)       Aja com segurança. Converse com você mesmo e entenda seus motivos. Converse com seu filho  e construa acordos e regras com a participação dele. E uma vez fechados os acordos, mantenha-os, independente das “alfinetadas” que você receberá na hora que precisar dizer “não”.

5)       Proteja seu filho e, embora pareça polêmico e invasivo, é sua função com o protetor e educador, supervisionar o uso da internet. Temos sido testemunhas do que este mundo maravilhoso e ao mesmo tempo cruel pode fazer com os desavisados. Prevenir os comportamentos é melhor que puní-los!

6)       Esteja inteiro no diálogo. Ouça com atenção, com respeito e cordialidade. Não julgue, não ofenda, não menospreze, não critique. Apresente argumentos que façam seu filho adolescente pensar nas questões sob outra ótica. Dê abertura, mesmo quando o ponto de vista dele o chocar, algumas vezes é só para testar você;

7)       Pratique as Terapias do Abraço e do Elogio. Não custam nada e agradam muuuuito!;

8)       Incentive seu filho adolescente a praticar esportes ou a ter outras atividades que o integrem a outros jovens. Mas não o force, respeite as escolhas dele.

9)       Conheça quem são os amigos de seu filho adolescente e se não tiverem valores morais iguais aos de sua família, ajude-o a repensar essa amizade;

10)    Mostre a seu filho adolescente o quanto a opinião dele é importante nas decisões familiares, isso fortalecerá o vínculo familiar e o fará sentir-se respeitado e integrado.

Em resumo, procure agir de acordo com a máxima cristã que nos ensina a tratar o outro como gostaríamos de ser tratados. Amor, atenção, proteção e respeito são quesitos fundamentais numa Educação Afetiva. Não custam caro, só dependem do seu querer.

Exercite isso! Seu filho e o mundo agradecerão, tenha certeza.

 

O incômodo da ansiedade

(Revista Ultimato, março e abril/2014)

Texto bíblico: Lucas, 10, 41

(Padre Jeferson Luis Leme)

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Hoje, vivemos numa sociedade urgente, rápida e ansiosa. Paciência e tolerância a contrariedades estão se tornando artigos de luxo. Sem perceber, a sociedade moderna – consumista, rápida e estressante – alterou algo que deveria ser inviolável, o ritmo de construção de pensamento, gerando consequências seriíssimas para a saúde emocional, o prazer de viver, o desenvolvimento da inteligência, a criatividade e a sustentabilidade das relações sociais. Adoecemos coletivamente.

A ansiedade é a preocupação demasiada com as necessidades primárias e as secundárias, as necessidades básicas e as supérfluas, as necessidades reais e as imaginárias. Constante e prolongada, a ansiedade pode levar a pessoa a adquirir úlcera, colite, asma, doença do coração e outros distúrbios orgânicos. Mas quando não mistura os problemas de ontem com os problemas de hoje nem os problemas de hoje com os problemas de amanhã, a pessoa não ansiosa, então, em paz se deita e logo pega no sono.

A ansiedade tem alguns sintomas como: Preocupações, tensões ou medos exagerados (a pessoa não consegue relaxar); Sensação contínua de que um desastre ou algo muito ruim vai acontecer; Preocupações exageradas com a saúde, dinheiro, família ou trabalho; Medo extremo de algum objeto ou situação em particular; Medo exagerado de ser humilhado publicamente; Falta de controle sobre pensamentos, imagens ou atitudes, que se repetem independentemente da vontade; Pavor depois de uma situação muito difícil.

Com palavras ternas, Jesus tentou convencer a prestativa irmã de Maria e Lázaro de sua ansiedade: “Marta, Marta, você está agitada e preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária! ” (Lc 10,41). No sermão da montanha, Jesus faz todo o esforço para acabar com a ansiedade, seja qual for a sua natureza e a sua intensidade. A receita é simples: “Não se preocupem! ”, “não se preocupem! ”. Não se preocupem com as coisas básicas, como comer, beber e vestir, e muito menos com todas as demais coisas.

A ansiedade só acaba com a contínua entrega de toda dificuldade, todo aborrecimento, todo imprevisto, toda decepção, todo desafio, toda dor nas mãos de Deus, por meio de orações precisas e corajosas. Quando a ansiedade começar a agitar o coração para levar a pessoa à confusão mental, e ao desespero emocional, a atitude correta, inteligente e simples é abrir-se completamente diante do Senhor, sem esconder dele coisa alguma. É necessário livrar-se do incômodo da ansiedade o mais depressa possíve

The Dog: o cão bobão

(R. C. Migliorini)

Para o Joli

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Recentemente, em um programa da TV Cultura sobre personagens desajustados na televisão e no cinema, atores falaram dos valores de personagens como o garoto que sempre apanha dos colegas de escola e que gosta da menina mais gata do ginásio. Ela, contudo, namora o fortão do time de futebol e mal olha para o fracote.

Em uma versão adulta, esse garoto pode tornar-se o sujeito que fala sozinho no restaurante, o marido que encolhe as crianças, o homem que está sempre mal-humorado ou o gênio da ciência.

Daí, lembrei-me de quando, nos idos de 1980, eu fiz intercâmbio cultural na Nova Zelândia. Então, eu adorava uma espécie de gibi que se chamava Footrot Flats. A história se passava em uma fazendola e os personagens, que eram os habitantes da propriedade rural, equivaliam aos nossos caipiras e seus animais. Um dos personagens era um cachorro vira-lata e trapalhão que se chamava, simplesmente, Dog, ou Cão. Ele competia com um cachorrão parrudo, o Major, pelo amor de uma linda cadela, a Jess.

Cão, o vira-lata que só pagava mico diante da amada, costumava ser subjugado por sua dona, uma menina que, para sua suprema humilhação, o fazia de boneca. Nessas ocasiões, ela o agarrava, o deitava em um carrinho de bebê entre um urso de pelúcia e uma boneca de pano; vestia-o com uma toquinha infantil e enfiava uma mamadeira na boca do pobre animal. Depois ela ia brincar perto do local em que Jess morava, enquanto Major desfilava seu porte atlético por ali. roger3

Jess, que mesmo assim, preferia o covarde e parvo Cão ao corajoso e espertalhão Major, dizia que ser um herói em tempo integral parecia tirar um pouco do atrativo do canzarrão. Segundo ela, não é meia tonelada de músculos comprimidos em um corpo cheio de cicatrizes e glória que fascina uma garota, mas sim o cara engraçado com um nariz como uma banana peluda, com o andar esquisito, mas que traz a lua para a namorada e a faz rir.

Isso vai ao encontro da tese que os atores do programa da Cultura defendiam. Para eles anti-heróis, personagens desajustados ou com idiossincrasias são simpáticos ao público porque mostram que as pessoas são imperfeitas. Assim, a identificação com eles é fácil.

Precisamos perceber nossas fraquezas e força em vez de nos ver apenas de forma negativa. Ao exemplo dos cães, ao fazer isso passamos a ser nossos melhores amigos, e não mais nossos piores algozes.

Memória e Felicidade – Como assumir o controle das suas lembranças e ser mais feliz

(por: Alexandre de Santi)

Você é feliz? Você está feliz agora? A resposta é mais complicada do que parece. Perceba a diferença nas duas perguntas. Na primeira, eu perguntei se você é feliz, ou seja, se está satisfeito com o andamento da sua vida. Na segunda, perguntei se você está feliz neste momento, lendo esta revista. E, somando essas duas coisas, qual é o saldo final? Feliz ou infeliz? Provavelmente, você hesitou antes de responder. Isso é normal. E acontece porque a felicidade é uma combinação meio complicada, uma mistura do presente com o passado. Você pode estar adorando este texto, mas triste porque foi mal numa prova ontem. Ou pode estar apaixonado por alguém, feliz da vida, mas achando esta conversa meio chata. A felicidade é uma combinação do presente com o passado. Só que o presente dura muito pouco. Para ser mais exato, 3 segundos.

A cada 3 segundos, ele se torna passado. Essa ideia surgiu em estudos do psicólogo francês Paul Fraisse e hoje é aceita por diversos pesquisadores, como o também psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel. Após 3 segundos, todas as informações que passam pela sua cabeça saem da consciência e são arquivadas nos sistemas de memória do cérebro. Isso significa que você enxerga a própria vida, fundamentalmente, através da memória. E isso tem uma consequência enorme: na prática, ela é o fator que mais pesa na felicidade. Mas está longe de ser confiável. Quase sempre nossas lembranças omitem ou distorcem detalhes do que aconteceu.

Pense num álbum de fotos. Você vai encontrar imagens do seu aniversário, do nascimento de um sobrinho, das últimas férias. Uma foto pode registrar um momento sorridente seu e de seus amigos numa festa. Na imagem, todos parecem felizes, e você relembra o momento com carinho. Mas o sorriso da foto não registra, obrigatoriamente, a forma como você se sentia naquele dia. Todo mundo já posou sorridente para um retrato mesmo se a festa estava chata. Ao abrir o álbum, no entanto, você nem sempre vai lembrar que a cerveja estava morna, que a carne do churrasco passou do ponto e do amigo que contava piadas ruins. A sua memória funciona como esse álbum.

A ciência está começando a entender como esse processo acontece. A memória é influenciada por dois mecanismos. O primeiro é a negligência sobre a duração das nossas experiências, ou seja, um instante de alegria intensa vale mais do que uma semana de felicidade moderada. E o segundo é a tendência a atribuir muita importância aos momentos que vêm por último, ou seja: se você for assaltado no último dia das suas férias, certamente se lembrará delas de forma ruim, mesmo que antes tenha passado 15 dias maravilhosos na praia. É como em um filme. As reviravoltas e o final são mais marcantes do que o restante da história. E isso pode nos levar a julgamentos equivocados.

“A memória negligencia a duração [dos eventos], e isso não colabora com nossa preferência por prazeres prolongados e dores curtas”, diz Daniel Kahneman em seu novo livro, Thinking, Fast and Slow (“Pensando, Rápido e Devagar”, ainda sem tradução para o português). Numa experiência coordenada por Kahneman, voluntários colocaram uma das mãos em um recipiente com água bem gelada. Com a outra mão, os participantes utilizavam um teclado para digitar a intensidade da dor. Cada voluntário mergulhou a mão duas vezes. Na primeira, ficaram 1 minuto com a mão submersa na água a 14 ºC. Na segunda, a temperatura era a mesma – mas era preciso suportar 30 segundos a mais. Só que nessa segunda vez Kahneman aplicou um truque. Nos últimos 30 segundos de sofrimento, ele injetou um pouquinho de água morna na vasilha. Era muito pouco, o suficiente para elevar a temperatura em apenas 1 grau. Uma mudança praticamente imperceptível, que não aliviava nada o sofrimento dos voluntários. Era um truque para mostrar como a memória engana as pessoas e pode fazê-las tomar decisões irracionais. Deu certo: 80% dos voluntários disseram que, se fossem obrigados a repetir a experiência, prefeririam o mergulho longo, que os faria sofrer por mais tempo. Por que escolher o mergulho que dura mais? Se fôssemos totalmente racionais, escolheríamos o sofrimento mais curto. As pessoas foram iludidas pela água morna – que dominou as memórias delas, simplesmente porque veio por último. “O estudo das mãos geladas mostra que não podemos confiar totalmente nas nossas escolhas. Preferências e decisões são moldadas pelas memórias, e as memórias podem estar erradas”, acredita Kahneman.

Agora transponha essa ideia para a sua vida. Imagine que, no final das suas férias, todas as fotos e os vídeos que você gravou serão apagados e você vai tomar uma poção mágica que vai apagar todas as memórias da viagem. Seria horrível. As memórias das férias são tão importantes quanto as férias em si. A foto e a possibilidade de compartilhar a viagem com familiares e amigos são partes fundamentais da própria viagem. E isso leva ao primeiro segredo para influenciar a memória: buscar experiências que rendam muitas lembranças – mesmo que elas não sejam necessariamente o que você mais deseja fazer.

A emoção da memória
Pegue as fotos do seu aniversário. Você provavelmente se lembra de quem esteve nele, o que foi servido, as conversas com os amigos. Também se lembra de onde estava, e o que estava fazendo, quando os aviões atingiram o World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Mas você se recorda do dia 10 de setembro de 2001? Aposto que não. E isso acontece porque a sua memória não foi desenvolvida para guardar tudo. “Temos a tendência de nos lembrarmos melhor de coisas que têm colorido emocional”, explica a pesquisadora Lilian Stein, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), especialista em memória emocional. A memória privilegia os momentos em que vivemos as emoções mais fortes. É um recurso evolutivo. Na natureza selvagem, fazia sentido preservar em detalhes os episódios em que fomos ameaçados por predadores. Isso nos ajudava a aprender com a experiência. Um experimento realizado pelos pesquisadores Daniel Reisberg, Friderike Heuer, John McLean e Mark O¿Shaughnessy provou que as situações de medo são as mais gravadas na memória – numa escala de 0 a 1, obtiveram pontuação de 0,9, praticamente empatadas com as situações tristes (0,89) e com vantagem sobre os momentos alegres (0,71). Em outro estudo feito por 3 universidades americanas, cientistas exibiram um vídeo com cenas de violência a dois grupos de estudantes. Os pesquisadores fizeram duas edições diferentes do filme, ambas com 1min33s de duração. A única diferença era o meio da história. Uma das edições continha uma cena de assassinato e a outra não. O grupo que assistiu à versão violenta se lembrou de muito mais detalhes do vídeo. Conclusão dos cientistas: os episódios dramáticos da vida geram memórias fortes.

É por isso que ficamos entediados com as obrigações do dia a dia: a rotina não produz sentimentos intensos. A memória é refém dos picos de emoção, como frustrações ocorridas no trabalho e finais de semana alegres. Por isso, para ser feliz, evite a todo custo situações que possam gerar memórias negativas (como um emprego ruim), mesmo que elas também prometam alguma recompensa (salário alto). O contracheque gordo tende a virar rotina depois de um certo tempo, mas as frustrações ficam marcadas na memória.

Nas férias também é assim. É muito melhor fazer duas viagens de 15 dias do que apenas uma de 30 dias. Isso porque as 2 viagens irão gerar mais lembranças diferentes (o que alimenta positivamente a memória). E você estará evitando a rotina – uma sensação inevitável de passar 30 dias no mesmo lugar.

Não confie demais nas próprias memórias. O simples ato de se lembrar de uma coisa é o suficiente para distorcê-la. Outro estudo, feito pelos pesquisadores Ulric Neisser e Nicole Harsch, entrevistou pessoas dias após o acidente com o ônibus espacial Challenger, que explodiu durante seu lançamento em 1986. A pergunta era: onde você estava quando soube da explosão do Challenger? Quase 3 anos depois, os cientistas voltaram a falar com os voluntários e descobriram que as informações haviam sido radicalmente alteradas na memória deles (em alguns casos, com lembranças totalmente opostas). Apesar disso, os entrevistados mantinham total convicção e relatavam minuciosamente os detalhes, como se o acidente tivesse ocorrido no dia anterior – mesmo que tudo aquilo não passasse de memórias falsas.

Isso tem uma explicação neurológica. As memórias são armazenadas na forma de conexões semipermanentes entre neurônios. Quando você se lembra de alguma coisa, essas conexões se tornam instáveis e quimicamente sujeitas a modificações e distorções. A cada vez que você acessa uma memória, ela pode ser alterada. É possível reprogramar lembranças ruins. “Quando utilizamos as nossas memórias, a informação fica suscetível a mudanças, durante um tempo que pode durar horas”, diz o cientista Martín Cammarota, da PUC-RS. E essa maleabilidade é importantíssima. Imagine um homem pré-histórico que precisa atravessar um rio para buscar comida. Na primeira vez em que tentou cruzar as águas, viu que o rio era muito fundo, desistiu e registrou em sua memória que o rio não podia ser atravessado. Meses depois, viu outra pessoa tentando – e conseguindo – atravessar o rio em outro ponto. Se as memórias fossem imutáveis, essa informação não entraria na cabeça do primeiro homem – que continuaria achando o rio algo intransponível. As memórias ficam instáveis quando as acessamos justamente para permitir que novas informações sejam agregadas a elas. Se a memória humana fosse 100% imutável, ninguém conseguiria aprender nada.

Vamos aplicar esse conceito na sua vida. Talvez você já tenha passado por um emprego difícil. Logo depois de pedir demissão, fica com uma memória ruim do tempo que passou nesse trabalho. Chefe carrasco, colegas cruéis, salário baixo, tudo isso vem à mente quando você recorda esse período ruim. Mas aí você consegue um emprego melhor e, tempos depois, o antigo trabalho ganha nova interpretação. Você passa a achar que o período foi importante para amadurecer, que aprendeu muita coisa no emprego antigo. E vive mais feliz. Esse tipo de alteração acontece naturalmente, mas também pode ser induzida ou controlada. Pesquisadores da Universidade de Montreal e da Universidade Johns Hopkins estão desenvolvendo drogas que poderão ser capazes de apagar memórias negativas da cabeça de uma pessoa. O objetivo é tratar ex-combatentes de guerra. Mas é possível que, em algum ponto do futuro, essas substâncias estejam disponíveis para qualquer pessoa.

Enquanto os remédios desenhados para atuar na memória não chegam às farmácias, você pode utilizar outras técnicas para lidar melhor com suas recordações. A readaptação de memórias é um processo natural que acontece a todo momento sem que você perceba. Não temos total controle sobre esse mecanismo nem os cientistas estão convictos do nosso poder sobre ele. Mas existem dois campos da ciência que comprovadamente podem ajudar a controlá-lo: a Psicologia Positiva e as terapias cognitivo-comportamentais. Lembra-se daquele exemplo do emprego ruim? Você só conseguiu ter um novo olhar sobre o passado porque encontrou um trabalho melhor. Dependemos de uma vida feliz no presente para conviver melhor com os acontecimentos do passado e para produzir boas lembranças das coisas que estamos vivendo agora. Mas não serve qualquer tipo de felicidade. É preciso buscar um tipo específico de felicidade, que dribla as limitações da memória humana. O truque é provocar variações no cotidiano, o que fará com que ele se enquadre na categoria de eventos “diferentes” e acabe gravado na memória. “Os hábitos são uma grande oportunidade, porque podemos mudá-los”, diz James Pawelski, da Associação Internacional de Psicologia Positiva.

Faça coisas diferentes. Se você janta fora toda sexta-feira, por exemplo, passe a frequentar restaurantes diferentes. Nada garante que você vá gostar deles, mas o sabor de novidade é ótimo para a formação de memórias. Na pior das hipóteses, a variação fará com que o restaurante de sempre volte a ter graça. “Se você está acostumado a comer caviar, daqui a pouco vai querer um caviar mais sofisticado para sentir prazer. Mas, se ficar um tempão sem comer caviar, qualquer caviar será bom”, explica Ricardo Wainer, professor da PUC-RS e especialista em terapia cognitivo-comportamental. O mesmo vale para viagens, exercícios e praticamente todos os hábitos do dia a dia.

A felicidade diferente
Também é fundamental ter objetivos. Onde você quer estar daqui a 1 ano? Ter metas é importante porque influencia o presente – e, como o presente só dura 3 segundos (lembra?), a memória. Imagine um velho empresário bem-sucedido relembrando os primeiros anos do seu negócio. Ele vai lhe contar das dificuldades e dos sacrifícios com entusiasmo e provavelmente vai encerrar com uma expressão do tipo: “Bons tempos”. Na memória dele, a fase de construção do novo negócio foi arquivada com cores alegres porque ele tinha uma meta, enxergava sentido no sacrifício. Trabalhar 18 horas por dia, se alimentar mal, operar com as contas no vermelho, lidar com problemas o dia inteiro: atividades que queremos evitar ao máximo e que costumam ser arquivadas como eventos ruins. Mas, quando associadas a um objetivo de vida, pulam para o grupo das memórias positivas.

O segundo caminho é encontrar alguma coisa de que você goste muito, mas muito mesmo. Você já deve ter feito alguma atividade na vida em que pensou “Puxa, eu poderia passar a vida inteira fazendo isso”. Essa sensação de parar o tempo tem uma importância maior do que parece. Músicos passam horas em concentração profunda aprendendo um trecho complicado de uma música. Para quem toca um instrumento e não sente a sensação de parar o tempo, destrinchar compassos difíceis pode ser uma tortura e vira motivo para abandonar o violão ou o piano. Afinal, você tem uma memória negativa dessa tarefa.

Mas quem sente uma concentração absoluta, quem não vê o tempo passar diante de uma atividade complicada (e agradável), vai querer repetir a experiência, e as 5 ou 6 horas sentado na mesma posição repetindo uma melodia à exaustão se tornarão uma memória positiva. E a coisa vai além.

Segundo Martin Seligman, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, pessoas felizes costumam relatar a necessidade de repetir com frequência a experiência de “parar o tempo”, um conceito conhecido como “fluxo”. “Você se sente totalmente em casa”, explica Seligman em um artigo do livro The Mind (“A Mente”, sem tradução para o português). “O que você tira disso não é a propensão de rir bastante. O que você atinge é um fluxo, e, quanto mais você investe nas suas maiores forças, maior o fluxo que você atinge na sua vida”, completa. É como se os benefícios dessas experiências prazerosas irrigassem satisfação para outras áreas da vida, criando condições para que você estabeleça um fluxo positivo para produzir memórias mais interessantes sobre o presente e para reinterpretar recordações do passado. Um emprego ou uma aula chata podem se tornar suportáveis se você consegue parar o tempo quando chega em casa, fazendo uma coisa de que gosta muito. Alguns sortudos conseguem atingir esse nível de concentração e prazer no próprio trabalho, outros em hobbies como a música, a jardinagem e as tarefas manuais. Seja qual for a sua escolha, boas memórias dependem do contato com essa fluidez. Quando sentimos a felicidade acontecendo no presente, e não somente no passado.

Memórias incríveis
Transformar o ordinário em extraordinário. Essa é a chave para criar mais lembranças boas

Drible o esquecimento
A memória não registra o que acontece na maior parte do tempo. Ela grava os momentos de maior emoção e/ou que acontecem no final de uma experiência (férias, por exemplo). Para o cérebro, um instante de alegria pura vale mais do que uma semana de bem-estar moderado, cujos detalhes fatalmente acabarão descartados pela memória e não ajudarão você a se sentir feliz no futuro. Por isso, é fundamental criar o máximo de momentos bons – e registrá-los da forma mais detalhada possível.

Multiplique por 2
Divida as férias em 2 períodos de 15 dias e visite 2 lugares diferentes, pois assim você produzirá 2 conjuntos de memórias prazerosas.

Cuide dos finais
Nosso cérebro foi programado para perpetuar os desfechos. Lembre-se disso e deixe bons momentos reservados para o final de cada episódio da vida, seja uma viagem de férias, seja uma festa com os amigos. Ir embora antes que a animação da festa caia é uma boa ideia para registrar uma memória feliz daquele momento.

Memórias esquecíveis
Coisas ruins acontecem. Com todo mundo. Mas você pode se livrar delas

Reinterprete o passado
Lembranças ruins são fortes, mas elas podem ganhar um novo significado com o passar do tempo. A ciência já provou que as memórias passam por um período de instabilidade sempre que você se recorda de alguma coisa. Isso significa que elas estão sujeitas a ganhar novas informações – e, sim, serem alteradas. É possível reinterpretar lembranças negativas. Basta que você passe por alguma situação feliz – ela cria um novo contexto, que permite transformar as memórias ruins.

Evite o que é ruim
Não adianta encarar uma rotina infeliz em troca de compensação social ou financeira. A alegria que você sente nos seus momentos de lazer dificilmente irá compensar a infelicidade que reina na maior parte do tempo.

Repense as experiências
Se você passou anos num emprego horrível, mas agora está num lugar melhor, lembre-se de que aquele sofrimento ajudou você a crescer, foi fundamental para forçá-lo a buscar algo novo. Uma memória ruim se transforma em algo bom.


Memória felizes
Mude a sua rotina – e assim construa um novo presente, um novo passado e um novo futuro

Produza lembranças melhores
Um estudo da Universidade de Michigan mostrou que voluntários melhoravam a avaliação de suas vidas quando encontravam uma moeda perdida (que havia sido plantada secretamente pelos pesquisadores). O inesperado é uma arma poderosa para produzir boas lembranças e para quebrar a rotina. A chave é buscar um cotidiano rico em novidades – mesmo que à primeira vista elas não pareçam grande coisa.

Persiga o diferente
Faça coisas novas. Por exemplo: comer coisas de que você não gosta. Isso irá criar memórias fortes – mesmo se você não gostar do sabor do jiló, a experiência (e a lembrança dela) fará o arroz com feijão parecer mais saboroso.

Faça o tempo parar
Encontre alguma coisa de que você gosta muito, mas muito mesmo de fazer, o suficiente para esquecer o tempo que passou fazendo aquilo. Esse tipo de atividade gera um tipo diferente de bem-estar, extremamente positivo – e poderoso -, que vai produzir um contexto de vida mais feliz. Isso permite que você reavalie suas memórias com tonalidades mais alegres.

 

Para saber mais

Thinking, Fast and Slow
Daniel Kahneman, Farrar, Straus and Giroux, 2011

Florescer
Martin Seligman, Editora Objetiva, 2011

The Mind
Vários autores (editado por John Brockman), Harper Perennial, 2011

Memory and Emotion
Vários autores (editado por Daniel Reisberg e Paula Hertel), Oxford University Press, 2003

Autoestima, corpo ou mente sã?

(Paulo Jacob)

autoestima

Olá, tudo bem?

Como anda sua autoestima? Bem? Mal? Estável?

Muitos acreditam que falar em autoestima, significa falar em tratar do corpo, ter vaidade física, procurando se tornar uma pessoa linda, com pernos tornadas, barriga sarada, cabelos e tudo mais na mais perfeita sincronia com o que a sociedade considera ser belo.

Tudo bem, concordo que cuidar do corpo faça com que a nossa autoestima melhore, mas e o a sua mente, você cuida dela? O que adiante ter um corpo bonito, e ficar sofrendo com coisas que não controla? Ou ter problemas mais sérios, gerando uma angústia constante na sua vida? Quer ser maravilhosa, e ter algum tipo de neurose que faça com que você não consiga ficar nenhum minuto sem se olhar no espelho, procurando imperfeições? O quanto sadia está a sua maneira de se cuidar?

Lembre-se que mens sana in corpore sano, ou seja, mente sã corpo são!

Até que ponto uma pessoa que se cuida tanto fisicamente, não está tentando resolver um problema na sua mente através do corpo? Se uma pessoa por exemplo tem um complexo de inferioridade grande, fazendo com que ela através do seu corpo “prefeito” equilibre esse sentimento, fazendo com que ela ao invés de cuidar da sua mente, gaste horas se exercitando. E se procura um corpo perfeito, o que está imperfeito na sua mente? Uma sexualidade não resolvida, por exemplo? Ou um conflito com alguém que ama, mas devido ao seu orgulho, não aceita agir humildemente, e assim resolver esse problema?

O quanto alguém que corre todos os dias, em uma ânsia de cada vez mais superar limites, não está inconscientemente fugindo (correndo) de algo que não quer encarar?

É claro que não devemos generalizar, e volto a dizer que se cuidar é muito bom, mas o que assusta é a forma exagerada (formação reativa?) com que as pessoas estão agindo.

Acredite ou não, a sua autoestima está mais ligada a sua mente, do que em relação ao seu corpo. Se você tem sérios problemas pessoais para resolver, e não os resolve, certamente isso irá roubar uma quantidade enorme de energia psíquica, fazendo com que a sua autoestima caia muito. E a cada dia que se passa, você sabe (sua mente sabe) que existem conflitos para serem solucionados. Infelizmente ainda existem pessoas que acreditam que a “perfeição de ser belo”, ou vaidade, vai resolver todos os problemas da sua vida.

A energia que faz com que a sua autoestima fique melhor ou não, está ligada diretamente em como você está lidando com os seus conflitos, seus recalques, e não na sua forma de vestir, ou na sua beleza física. Isso vai ser algo que ajudará você a se sentir melhor, tipo melhorar 5% a sua autoestima, os outros 95% está em como você realmente se vê, pois do que adianta você se achar a pessoas mais linda do mundo, mas ao mesmo tempo não consegue tirar da sua mente que é uma pessoa burra e incapaz?

Cuido do todo, e não de uma parte somente! Os melhores atletas são aqueles que se preparam tanto fisicamente, como psicologicamente. De nada vai adiantar ter uma preparação perfeita para uma prova, se você continuar achando que é um perdedor, certo?

Uma ótima semana!

Abraço!

Ressentimento: energia desperdiçada num “pote de mágoas”

(Nathalia Paccola)

infant

Se “o problema do outro é problema do outro”, esse texto chega exatamente para debater a compaixão.

Tenho observado a cultura do ressentimento. Como crianças, esperamos demais dos outros e das situações e pouco fazemos além de reclamar e de nos considerar vítimas. Em vez de insistir no “eu mereço…” como lamentação, deveríamos aprender a nos envolvermos também. A arregaçar as mangas não só para exigir, manifestar, reclamar, apontar, mas também para formar uma rede de pessoas resolutivas, envolvidas, dispostas a melhorar não o mundo, mas o pedaço a que pertencem. Sabe, tem muita coisa piorando a vida da gente. Mas fazer coro com aquilo que atrapalha, não resolve.

Entretanto, parece que só agora, depois de chateada, isolada e pensativa (sim, também tenho meus agudos momentos), consigo compreender a dimensão agressiva embutida neste prazer que temos em nos exibirmos, atrairmos olhares de admiração. Gastamos tempo e energia consideráveis com o objetivo de chamar a atenção das pessoas em geral – até mesmo daquelas que nos interessam pouco.

Vivenciei fato curioso nas últimas semanas. Uma aluna alertada por sua professora de que deveria recorrer à psicoterapia para avaliar uma premente depressão e casos de formação reativa, revelou-se um novo ser nos dias que se sucederam. Não obstante achar que a Fênix não passa temporada nas cinzas para renascer, reconheceu nas palavras humildes da mestre, energia para sustentar sua vaidade.

Vivemos nos comparando e quando nos sentimos menos do que “outros”, imediatamente nos sentimos humilhados. Fugimos da humilhação porque é uma das maiores dores que podemos sentir. Provavelmente, como parte ilustrativa do tema do texto e tentando não julgar, a estudante sentiu-se menosprezada, ao invés de sentir que havia um verdadeiro interesse da professora em fazer com que sua aprendiz buscasse um tratamento.

Mas a moça surtou. Arrumou um meio de persuadir outras colegas a se revoltarem, pesquisou e-mails, juntou-se em grupos, fomentou diálogos intermináveis, criou discórdias. Ela continua sem tratamento e conseguiu alguns seguidores na escola que freqüenta. Bem, semelhante atrai semelhante.

Numa sociedade competitiva e estimuladora da ambição, praticamente todos nós nos sentimos por baixo (humilhados) em algum aspecto que julgamos “essencial”. Somos todos movidos pela competição e estamos todos frustrados porque achamos que a cota de privilégios, de reconhecimento, que recebemos é insuficiente.

Nos tornamos rancorosos, amargurados e com sede de vingança: usamos nossas facilidades  com o intuito de nos vingarmos daqueles que nos humilham com as “qualidades” que não possuímos.

O fenômeno é quase universal: todo o mundo fica com raiva de todo o mundo. Todos aqueles que podem sentem a humilhação e tratam de se vingar exibindo seus dotes.

Mas atenção: ao tratarmos isso como inevitável, teremos que constatar que tais processos, que estavam a serviço do aprimoramento e perpetuação da nossa espécie, agora é o esperado, é o resultado da ação, é o que se conclui da evolução.

Acredito ser essencial aprofundarmos a reflexão acerca da vaidade e da competição, da ênfase que temos dado às qualidades excepcionais que só uns poucos podem ter e de quanto tudo isso é, de fato, inexorável. Um elemento básico para alcançarmos alguma serenidade consiste em nos livrarmos das mágoas e ressentimentos que povoam nossa subjetividade.

Nem sempre é fácil reconhecermos os fatos que nos provocaram enormes ressentimentos: muitos foram causados por nossos amigos mais queridos. Qualquer pequeno avanço nesse estado já garante um grande alívio.

(Texto livre, adaptado de reflexões pessoais, artigos sem divulgação do autor e de obras de Flávio Gikovate)

O incômodo da tentação

(Padre Jeferson Luis Leme)

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Texto bíblico: 2Sm 11.2

Quantas vezes ouvimos falar em tentação?  Ou quando nos sentimos tentados a algo?  Tentação é o convite quase diário feito pela pecaminosidade latente, pelas circunstâncias da vida. É claro que aqui vale lembrar nossas tendências e o nosso lado egocêntrico. Tentação, na verdade, é uma experiência desagradável que dura a vida inteira, com possíveis intervalos de curta duração. No Evangelho de Lucas registra que o diabo, depois de “tentar Jesus de todas as maneirar, foi embora por algum tempo”, esperando outra oportunidade (Lc 4.13).

A tentação provoca um sério atrito entre a boa, agradável e perfeita vontade de Deus e a vontade do pecado (aqui as nossas estruturas egocêntricas e as tendências). Uma oferece resistência a outra. A pessoas cai em pecado quando sacrifica a vontade de Deus para realizar a vontade que naquele momento toma conta de si. Vamos lembrar quando Jesus disse; “Daí a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que de Deus”. Ao ver “uma mulher muito bonita tomando banho”, o rei Davi passou por cima de tudo e fez a vontade da tentação.

Na Carta de Tiago (1.14), nos ensina que “as pessoas são tentadas quando são atraídas e enganadas pelos seus próprios desejos”. Sendo assim, agimos egocentricamente sem pensar no próximo, frisando somente os nossos desejos, buscando a felicidade nas coisas, sistemas e pessoas, caído na tentação.  A tentação pode ser uma mera sugestão interna (que procede da carne), externa (que procede do ambiente) ou etérea (que procede das forças espirituais do mal que vivem nas alturas).

A tentação é exposta, mas nunca imposta. Negar-se a si mesmo dia após dia, principalmente na hora da tentação, é a única maneira de não ceder ao convite pecaminoso. Jesus diz: “Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23). Ora, não há mistério em negar-se a si mesmo. Isto é, é dizer um corajoso e persistente não aos desejos provenientes da tentação, das tendências e das estruturas egocêntricas elaborando e compreendendo a vida.  Por quantas vezes? Todas as vezes que forem necessárias e sem a menor perda de tempo. Quanto mais se demora em dizer não, mais difícil torna-se a vitória sobre a tentação. Lembre-se que a pessoa tentada precisa ser humilde e admitir que não é fácil vencer a tentação. Ela precisa de forças que vem de cima e de domínio próprio.

Para concluir, penso que umas das orações poderosa é a Oração do Pai Nossa. Lá, Jesus nos ensina a pedir: “Não nos deixei cair em tentação, mas livra-nos do mal, Amém! (Lc 6.13).